Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

UM APERTO DE MÃO




Escrever sobre o filme “Chef” (2014), do diretor norte-americano Jon Favreau, pode significar cair nas obviedades de suas próprias armadilhas. Se ali todo o conflito se estabelece justamente a partir de uma crítica negativa que o chef de cozinha Carl Casper (interpretado pelo próprio Jon Favreau) recebe sobre a sua gastronomia, aqui, se debruçar criticamente sobre o filme já vem carregado de uma responsabilidade com o objeto sobre o qual se escreve, pois de antemão o próprio filme estabelece um diálogo com as críticas vindouras. É justamente pelo fato de o embate entre crítico e “artista” ser, no filme, moralizado, que a narrativa não consegue ir além de superficialidades na discussão que se pretende trazer sobre crítica, mercado e independência artística. Tudo no filme se personifica na figura de um chef excêntrico esboçado para que o espectador se identifique incondicionalmente com sua trajetória.
 
Como não poderia deixar de ser, “Chef” investe nas sequências de cozinha, com closes de alimentos sendo manipulados, ingredientes de diversas cores e mãos ágeis com facas. Tudo isso reiterado por uma trilha sonora alegre, que traz uma vivacidade patética para o labor da cozinha. Tudo muito asséptico, bonitinho e sempre mediado pela aspiração por uma independência artificial, pois submetida a um projeto pequeno burguês, de bem-estar financeiro e reconhecimento profissional. Se para o chef Carl Casper as obrigações com o filho são burocráticas porque o trabalho o consome, a solução encontrada não é romper com a lógica do trabalho, mas sim incluir o filho nela. É também o garoto que vai inserir o pai no mundo das redes sociais e ensiná-lo a usar o twitter, através do qual ele se torna uma celebridade. 
 
 
A partir daí, o cozinheiro pop e excêntrico é também vendável e o filme explora isso não só através das artimanhas do pequeno empresário que abre um food truck para vender comida latina, mas também, no próprio filme, com as insistentes propagandas da apple, do twitter e até do campeão de vendas em lares americanos, o tal do George Foreman, que nós também importamos. É assim que a discussão sobre arte e mercadoria não se torna um ponto de conflito, mas apenas uma constatação para a qual a resposta que se dá é que o próprio filme está à venda. 
 
 
O embate e desafios entre o chef Carl Casper e o renomado crítico Ramsey Michel não trazem à tona nem as contradições da atividade crítica em si e muito menos as peculiaridades de uma forma artística milenar como a gastronomia. O conflito entre os dois, ao invés de produzir sentido narrativo para o filme, acaba sendo somente o ponto de virada necessário para um road movie insonso, em cima de um food truck, e carregado daqueles clichês que somente os norte-americanos sabem produzir sobre a cultura latino-americana. Não é à toa que o conflito entre crítico e chef é resolvido, no final, através da conciliação: ambos se tornam sócios de um novo restaurante, o El Jefe. Com todo seu carisma e excentricidade, o cineasta Jon Favreau nos entende a mão, com um sorriso simpático. Silêncio. Só nos resta negar e virar as costas.