Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

Melindres Românticos




Nada mais pedante do que uma comédia romântica europeia que tenta ser americana. O estilo gourmet do filme belga “Bistrô Romantique”, dirigido por Joël Vanhoebrouck, vem travestido de cinema cult para nos inundar de clichês cinematográficos e baboseiras subjetivas. Pascaline e Angelo são dois irmãos, donos da Brasserie Romantiek, herdada do pai, e se preparam para receber clientes para o jantar do dia dos namorados, num evento exclusivo para casais e com menu fixo. Porém, o primeiro a aparecer para jantar é Frank, antiga paixão de Pascaline, que surge com a proposta para ela abandonar tudo e ir com ele à Buenos Aires. É a partir deste conflito da personagem principal, que irão se estabelecer os demais, em torno de acertos de contas amorosos durante o jantar.
 
São os problemas privados das personagens que compõem a narrativa e, com raras exceções, não dão espaço para questões sociais mais amplas ou mesmo discussões aprofundadas destas crises de relacionamento. Nesse sentido, chega a ser irônico que o cineasta Joël Vanhoebrouck tenha se apropriado da fórmula do filme “O Jantar”, de Ettore Scola, para construir um longa-metragem que se passa inteiro no microcosmo do restaurante. Se na obra de Scola o desenvolver do jantar explode em contradições e revela estruturas mais profundas, no filme belga as subjetividades afloram a tal ponto que, pelo contrário, escamoteiam-se todas as relações sociais e foca-se nos melindres românticos dos casais.
 
 
Não se trata aqui de negar a possibilidade de um filme sobre o amor, mas de questionar qual o tipo de amor que “Bistrô Romantique” se propõe a discutir, ou melhor a mostrar. Repleto de clichês - como, por exemplo, o jovem Walter, que tem uma timidez patológica, marca encontros pela internet e conversa consigo mesmo no espelho do banheiro –, o longa se arrasta em um esquema de recorte de situações, nas quais a câmera acompanha alguns diálogos de cada casal, alternados com os bastidores gastronômicos e amorosos da própria cozinha do restaurante. Toda a construção naturalista das situações cria um tipo de identificação com um ideal burguês de amor e as decepções de ordem afetiva que ele traz. 
 
Há algumas exceções que não estão nas escolhas formais de câmera, trilha sonora, edição, já que todas são também oriundas de um tipo de receita para se fazer cinema, que sempre resulta no mesmo produto de fácil digestão. A própria divisão por capítulos, com os nomes dos pratos servidos, torna-se um recurso pasteurizado, que ao invés de trazer alguma inquietação formal, apenas serve como enfeite narrativo. São em um ou outro diálogo ou então no poder de decisão dado às personagens mulheres, que estão os pontos fortes de “Bistrô Romantique”. No entanto, Pascaline, por mais que seja representação da mulher independente, que mantém sua autonomia ao romper um relacionamento amoroso, escolhe seguir com sua vida pequeno-burguesa, em um restaurante gourmet, que seguirá recebendo as crises da classe média. Como diz seu irmão, logo no início do filme, “o amor custa dinheiro”. Mais à frente, um dos personagens perguntas a sua esposa se eles não são um casal e ela responde que não: “somos uma entidade econômica” – e não há melhor expressão para definir “Bistrô Romantique”.