Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

Dom Quixote caipira




Em “A Marvada Carne, o personagem-narrador Nhô Quim, um caipira que vive “lá nos cafundó” do interior paulista, sai em peregrinação atrás de uma mulher pra casar e carne de boi pra comer. Dirigido por André Klotzel, o longa passeia pelo imaginário camponês para traçar um retrato de um período histórico do Estado de São Paulo de elevado êxodo rural, no início dos anos de 1980. Aí está um dos seus pontos fortes, ao lidar também com o esmagamento do homem do campo na cidade grande. A obsessão pela carne de boi é a metáfora gastronômica para a ânsia pelo consumo, tão característica dos avanços capitalistas pelo interior.  
 
A associação com os personagens de Mazzaropi é inevitável, porém a idealização de um campo idílico e nostálgico é mais forte aqui, já que nos filmes Mazzaropi os valores são assumidamente conservadores, mas o trabalhador é um trabalhador em qualquer circunstância, sempre explorado e justamente em constante conflito com isso, mesmo que pelo lado tragicômico. Já Nhô Quim é quase um dom quixote caipira, um romântico que vagueia atrás de mulher e carne, mas que trabalha para si próprio, mesmo quando trabalha para os outros. Impera a mesma lógica do apesar de tudo, tudo vai bem. 
 
 
Da mesma forma, por mais que a personagem de Sá Carula, interpretada por Fernanda Torres bem jovem, seja muito esperta para conseguir aquilo que deseja, a escolha pelo ponto de vista masculino, que dá o tom ao filme, traz à tona um discurso machista que condiz com a realidade do campo, mas que é reafirmado no próprio “causo” narrado sem qualquer viés crítico. Após casarem, Nhô Quim e Sá Carula têm filhos gêmeos e ele diz que vieram: “uma fêmea pra mandar na casa e um macho pra mandar no mundo”. Mas não podemos esquecer que há também aquele que manda no filme e escolhe o que narra.
 
André Klotzel demonstra claramente os laços afetivos que tem com o seu personagem, principalmente através da voz off em primeira pessoa de Nhô Quim, pois toda ela é construída de maneira a causar empatia por uma figura de bom coração, quase pura em seus anseios e totalmente desprovida de más intenções. Porém, ao mesmo tempo, o excesso de ingenuidade traz à tela um indivíduo “burro”, totalmente alienado das coisas que o cercam, e que é enganado pelo homem da cidade de uma maneira totalmente previsível, como se acreditasse que bois nas telas das televisões de uma vitrine estivessem eles mesmos à venda. Não que a cena não seja verosímil e não pudesse acontecer, mas a partir do momento em que Nhô Quim é a generalização do caipira é esta a imagem que fica também generalizada, já que a exceção vem confirmar a regra.  
 
 
São talvez dois os trunfos de “A Marvada Carne”: a convincente atuação dos atores, principalmente de Adilson Barros como Nhô Quim e a tentativa de originalidade e invenção estética. Nesse sentido, são exemplares de uma busca pela experimentação momentos como aquele em que surge o Curupira ou então o próprio Diabo para quem Nhô Quim vende uma galinha preta, para conseguir dinheiro e comprar a carne na cidade grande. Em outra cena, ele corta sem querer o nariz de um amigo com um facão, mas como “carne quente prega”, ele cola de volta o nariz. Quando toda a comunidade se junta para ver o resultado, descobre-se que ele foi colado de ponta cabeça. Além da comicidade acertada da cena, há toda potência da oralidade típica do caipira, que acredita ele próprio naquilo que narra e põe verdade na maneira como o faz. 
 
 
O desfecho, consagrado por uma bela cena em que Nhô Quim anda pelo centro de São Paulo com uma peça de carne nos braços e vai se afastando para a periferia, é daqueles momentos em que lamentamos que um filme não termine, pois seria um grande final. Mas a última cena em si parece que vem para estragar toda a possibilidade de explosão estética que esse percorrer São Paulo poderia ter. O churrasco, no subúrbio da cidade, em meio a amigos e o desenvolvimento de novos laços, é o ponto de conciliação, que não permite que o personagem se emancipe ou se destrua, e também não permite que a ousadia de “A Marvada Carne” se aproprie da sua própria ânsia por experimentação estética. É um final chocho, de novela, que amarra as pontas apenas para terminar mais um causo.