Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

Como Fazer um Filme




Parece-me sempre complicado buscar associações temáticas entre filmes, ainda mais quando se limita ao ponto de categorizar o cinema em nichos, pois as aproximações acabam sendo sempre arbitrárias e até subjetivas. É afundado nesta contradição que retomo esta coluna que pretende se debruçar sobre filmes que tratam de alguma forma da gastronomia. E é justamente neste “de alguma forma” que me dou a liberdade de trazer à tona livres associações para justificar falar sobre cinema. Recentemente, assisti “Como Cheirar uma Rosa: Uma Visita com Rick Leacock à Normandia” (2015), filme atravessado o tempo todo pela culinária, mas que nos fala de outras coisas, talvez mais pertinentes ou não. É justamente na sua despretensão que está a força desta singela celebração do afeto humano e homenagem cinematográfica ao documentarista britânico Richard Leacock.
 
 
Dirigido pelo casal norte-americano Les Blank e Gina Leibrecht, o filme em si é a visita que ambos fazem, em 2000, ao amigo Leacock, um dos responsáveis pelo aprimoramento do chamado “cinema-direto”, através da sincronização de som e imagem durante a captação, que permitia menor interferência do cineasta sobre a realidade filmada. É em sua casa, na Normandia, no norte da França, que Leacock se abre para uma conversa informal filmada por Les Blank e que resulta em um perfil biográfico muito singular do diretor britânico. A simplicidade do filme dialoga formalmente com a simplicidade de Richard Leacock, que recebe seu amigo com ternura, enquanto cozinha. Em meio à deslumbrante paisagem da propriedade do cineasta, que “Como Cheirar uma Rosa: Uma Visita com Rick Leacock à Normandia” é, antes de tudo, uma aula sobre o próprio cinema. Aos 79 anos, quando foi filmado, Leacock se debruçou sobre lembranças de sua carreira, as quais são ilustradas por Les Blank através de imagens dos filmes que ele cita.

Por mais que aparentemente estejamos frente a um senhor com a vida ganha, que se acomodou ao seu modo de vida pequeno burguês, a essência de Leacock vai se descortinando e passamos a uma compreensão mais profunda, inclusive da generosidade política deste personagem que, antes de tudo, doou sua vida ao desenvolvimento de uma linguagem. São nas sutilezas das conversas que percebemos o homem por trás do artista e o artista que apequena o homem. Entre o preparo de um cordeiro, o descascar de batatas e a afetuosa relação que tem com sua companheira e parceira no cinema, Valerie Lalonde, o cineasta escancara o seu amor pela imagem e pela simples ideia de transmitir ao espectador as sensações daquilo que capta com sinceridade. É comovente, por exemplo, o carinho que ele demonstra por uma imagem, a princípio banal, de um casal de japoneses que tentam utilizar um telefone de rua sem sucesso. Leacock extrai da mais ingênua imagem significados que atravessam a sociedade e as inquietações do homem. Tudo, portanto, está na sutileza da captação.
 


 
Leacock morreu em 2011 e o diretor do filme, Les Blank, em 2013, ainda sem ter finalizado o filme, que foi editado e lançado pela viúva de Les Blank, Gina Leibrecht, que assina a direção ao seu lado. Sem ser pedante, as imagens revelam aos poucos o complexo ser humano por trás da simplicidade que imprime em seus filmes e também na gastronomia que tem como hobby. A associação entre a sutileza com que prepara um dos pratos mais populares da França, o pot-au-feu, um guisado de carne com ervas aromáticas (talvez equivalente ao nosso “picadinho”), e o próprio modo com que encara a realização cinematográfica é inevitável. Se o paladar é estimulado com os sabores que te levam para outros lugares, os filmes também devem levar o espectador a “sensação de estar ali”, como insiste Leacock, para voltar a si transformado, absorto em novas compreensões do mundo que não as habituais.

É a verdade da imagem, não em um sentido moral, mas dentro da perspectiva de uma ética cinematográfica que Leacock parece querer transmitir. Em um dos momentos em que se revela a coerência do homem por trás das câmeras, ele relembra de um de seus filmes, no qual captou o momento em que políticos discutem economia e questões políticas, em um quarto de hotel, quando um camareiro chega com o almoço que foi pedido. Ao invés de desligar a câmera, ele segue filmando a patética discussão que, agora, mistura, as mesmas questões políticas com a preocupação de encontrar os bifes mal ou bem passados e seus respectivos donos. Mais uma vez, a simplicidade do olhar, quase ingênuo, explode em significações, trazendo uma triste e sarcástica nota sobre os caminhos que o capitalismo nos impõe. Longe de ser um conformado, Richard Leacock celebra a vida, mas não sem determinar o que olhar e como olhar, para dali tirar toda a força de seus filmes. É assim que “Como Cheirar uma Rosa”, para além das rosas, talvez nos ensine, afinal, algo sobre como fazer um filme.