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ARTES
Por: Monique Allain

13ª Documenta de Kassel I




Inaugurada em 06/06 para profissionais e em 09/06 para o publico, a 13a edição da Documenta de Kassel, evento considerado internacionalmente o mais importante no campo da arte contemporânea, ocorre a cada cinco anos em Kassel na Alemanha e tem duração de 100 dias. 
 
A mostra dirigida pela escritora, historiadora de arte e curadora americana e italiana Carolyn Christov-Bakergiev (1957) conta com 193 participantes oficiais. As obras e ações ocorrem simultaneamente em quatro localidades diferentes, Kassel, Kabul, Alexandria e Banff, sendo que o maioria se concentra na cidade alemã. Questões envolvendo domínio, vitimação e poder, dão o tom do evento. Todos os continentes estão representados, oferecendo uma amostra global do imaginário e da cultura do mundo contemporâneo, com suas variadas cores e vibrações. Nota-se uma acentuada presença de artistas oriundos de localidades nas quais as culturas foram marcadas por conflitos sociais e políticos, tais como Cairo, Cabul, Palestina, Bangkok, Camboja, Paquistão, Istambul, Bombaim, Nova Délhi, e Beirute. As obras dão destaque à carga sociopolítica da abordagem curatorial. É certo que uma das grandes aquisições da arte contemporânea foi a inclusão da presença intelectual do artista. As qualidades formais de uma obra não bastam mais para justifica-la enquanto produção artística. O risco que corremos hoje, quando a obra se apoia demasiadamente em um discurso político é que este eclipse sua poética tornando-a didática, retórica e até mesmo panfletária. 
 
Se, e em parte por conta disto, certas expectativas nesta edição da Documenta não foram correspondidas, se alguns artistas cuja trajetória de produção consistente decepcionaram, é certo que algumas pérolas garantem a qualidade do evento. Destacamos especialmente as obras “Shadow Procession” de William Kentridge, “Old Train Station Kassel - Vídeo Walk” de Janet Cardiff e George Bures Miller, “In Surch of Vanished Blood” de Nalini Malani, e “Soil-erg” de Claire Pentecost. Alguns outros trabalhos que também intrigam pela qualidade, linguagem e poética são “The Sewing Room” de Istvan Csakany, “Airplane” de Thomas Bayrle, “Home & Away: Mother Courage’s Van” de Warwick Thornton e o espaço instalativo produzido por Haris Epaminonda e Daniel Gustav Cramer.
 
Nos conteúdos das obras apresentadas na 13a Documenta de Kassel fatos históricos tais como a Segunda Guerra Mundial, o Apartheid,  e as guerras no Oriente Médio se mesclam a problemáticas da atualidade, dentre elas as investigações sobre noções de território e de lugar, a condição feminina, as sequelas do colonialismo e os desequilíbrios socioambientais. Memórias e projeções se amalgamam com o momento atual constituindo um território denso e simultâneo no qual temporalidades múltiplas, passado, presente e futuro não mais se diferenciam.
 
Dentre os tipo de produções, as instalações predominam e nelas a presença da imagem videográfica e criações sonoras é notória. Ações e performances também estão presentes. Os trabalhos foram concebidos utilizando-se uma mescla de meios e recursos. Objetos, desenhos, pinturas, esculturas, algumas poucas fotografias, e os inúmeros vídeos não constituem obras em si, mas são utilizados como elementos que as compõem. Este fato inviabiliza qualquer tentativa de categorizar os trabalhos conforme as técnicas empregadas e enfatiza a irrelevância em se diferenciar a produção contemporânea de acordo com estes parâmetros. 
 
Diversas instituições culturais, públicas, edificações temporárias e espaços abertos abrigam os trabalhos. Localizar as obras espalhadas em diferentes áreas de Kassel, começando pelo museu Fridericianum, eixo principal da exposição, e prosseguindo ao parque Karlsaue, à estação de trem, e aos inúmeros outros pontos nas redondezas do museu, é como participar de uma espécie de “caça ao tesouro”, já que muitas vezes as indicações são pouco claras. Mas os deslocamentos possibilitam uma oxigenação do pensamento e reflexões mais profundas proporcionadas pelas experimentações artísticas vividas. Passeios e descobertas compensam o esforço; apenas exigem um tempo maior de dedicação ao programa. Para se apreciar devidamente a mostra calculamos uma estadia de quatro dias em Kassel.
 
Veja na próxima edição a participação das artistas brasileiras Anna Maria Maiolino e Renata Lucas na 13a Documenta de Kassel.